A imigração Italiana no Brasil comemora mais um aniversário

O Dia Nacional do Imigrante Italiano, comemorado nesta terça-feira (21), rememora a chegada ao Espírito Santo, em 1874, da Expedição de Pietro Tabacchi, evento que marca a imigração em massa de italianos para o Brasil. Ao todo foram 388 camponeses que embarcaram no navio à vela “La Sofia” e chegaram à capital Vitória em busca de novas oportunidades e vivências. Grande parte da história da imigração italiana nas terras capixabas está no acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES).

Em 1995 a instituição criou o Projeto “Imigrantes Espírito Santo”, que utiliza o método de cruzamento de dados entre as diversas fontes disponíveis para cada imigrante. Atualmente são 38.495 nomes catalogados, permitindo aos descendentes conhecerem um pouco mais sobre a história dos seus antepassados. A pesquisa sobre cada família pode ser feita no site www.imigrantes.es.gov.br.

A primeira expedição de italianos para o Espírito Santo foi batizada com o sobrenome do seu idealizador, Pietro Tabacchi. De acordo com o sociólogo Renzo M. Grosselli, no livro “Colônias Imperiais na Terra do Café”, da Coleção Canaã do APEES, Tabacchi era um italiano oriundo de Trento que já se encontrava no Espírito Santo desde o início da década de 1850, onde adquiriu uma fazenda no município de Santa Cruz (atual Aracruz). Ao observar o interesse do Brasil pela mão de obra europeia ele decidiu oferecer terras para os imigrantes em troca do direito de derrubar 3,5 mil jacarandás para exportação.

Após um longo período de negociação o Ministério da Agricultura autorizou a Província capixaba a firmar contrato com Tabacchi, que por sua vez enviou emissários ao Trentino (Tirol Italiano), à época sob o domínio austríaco, para capitanear famílias daquela região e do Vêneto. Assim, no dia 3 de janeiro, às 15 horas, partia do porto de Gênova o “La Sofia”. A chegada ao Espírito Santo ocorreu no dia 17 de fevereiro e o desembarque se prolongou até 27 do mesmo mês.

Em 1º de março começou a viagem até o porto de Santa Cruz, em direção à propriedade de Tabacchi. Porém, os colonos logo perceberam que foram enganados pelas falsas promessas. Não havia terras preparadas e a situação nos alojamentos era caótica. Esses fatos, somados a uma difícil travessia pelo Atlântico, foram ingredientes que culminaram na primeira revolta. O descontentamento era grande e a rebelião só foi contida pela ação da força policial. Por outro lado, os imigrantes obtiveram informações sobre as colônias oficiais, nas quais teriam melhores condições de trabalho e a oportunidade de serem donos dos seus lotes.

Verificou-se na época a necessidade de documentar oficialmente os procedimentos: ofícios, cartas, contratos, relatórios, listas de passageiros dos navios e hospedarias e passaportes. Com isso, os materiais gerados para o controle administrativo das ações referentes ao fluxo migratório, em suas diversas etapas, tornaram-se registros para o resgate da história de cada família e indivíduo. Memória esta guardada e preservada pelo APEES.

Trinta e seis mil nomes de imigrantes italianos no Es-pírito Santo durante o sécu-lo XIX (e outros estão sen-do acrescentados, referen-tes ao século XX). São aque-les que o leitor, simples cidadão ou estudio-so, encontrará nesta obra. É o resultado do Projeto Imigrantes Espírito Santo, criado e desenvolvido pelo Arquivo Público do Esta-do do Espírito Santo, a partir de 1995. O Pro-jeto permitiu também a detecção de outros 17.000 nomes relativos aos imigrantes de di-ferentes nacionalidades que não estão dis-poníveis neste volume, mas que podem ser encontrados on line juntamente com os de-mais, somando um total de 56.000 nomes, no site www.imigrantes.es.gov.br.

Um dado que, mais uma vez, coloca o Espírito Santo e seu Arquivo Público na vanguarda do Brasil.Dizemos “mais uma vez”, porque são ou-tros dois fatores que conferem ao Estado a li-derança, no Brasil, com relação ao fenômeno maciço da imigração italiana e sua história.Em primeiro lugar, o Espírito Santo foi a Província imperial que recebeu a primeira remessa importante de emigrantes italianos, aquela que deu início ao que os historiado-res definiram como o fluxo emigratório ita-liano em massa para o Brasil, que trouxe ao gigante sul-americano mais de 1,5 milhão de homens até 1940. [1] Foi a 17 de fevereiro de 1874, de fato, que atracou, no porto de Vitória, o navio a vela “Sofia”, que partira a 3 de janeiro do porto italiano de Gênova. De sua lista de embarque, constavam os nomes de 388 camponeses de língua e cultura italia-na. Alguns com passaporte italiano e originários do Vêneto, a maioria com passaporte austríaco e originária do Trentino, terra que então fazia parte do império austro-húnga-ro. Neste caso, tratava-se de trabalhadores e famílias contratadas por um empreende-dor privado, Pietro Tabacchi. [2

Mas, a partir daquele momento e durante vários anos (pelo menos até 1886, quando o Estado de São Paulo passou a atrair a maior porção dos fluxos europeus dirigidos ao Brasil), o governo do Rio de Janeiro passaria a estimular e financiar a imigração italiana, com base na Lei das Colônias, de 1867, e do contrato Caetano Pinto Junior, que àqueles camponeses ofereceriam terra a baixo custo e a travessia do oceano Atlântico, gratuita.Baseando-se nessas evidências históricas, o senador capixaba e ex-governador do Espírito Santo Gerson Camata propôs ao Se-nado Federal Brasileiro a aprovação de uma lei que criasse o Dia Nacional da Imigração Italiana, a ser comemorada no dia 21 de fe-vereiro de cada ano, exatamente de acordo com a chegada daqueles primeiros colonos a Vitória. [ 3] Tal fato tornou oficial a primazia do pequeno Estado brasileiro em nível federal.Ainda um outro aspecto, contribuiu para fazer do Espírito Santo um líder brasileiro no que concerne à imigração italiana. Foram realizados inúmeros e diversos cálculos a propósito, mas é um fato quase unanimemente aceito que o Estado da região Sudeste conte hoje com o maior percentual de população de ascendência italiana. Dispõe-se de resultados de pesquisas que indicam uma cifra ligeira-mente inferior a 50% à população capixaba de ascendência italiana. [4] Outras apontam 65%, contra, por exemplo, os 60% de Santa Catarina, menos de 40% do Paraná, 30% de São Paulo e 22% do Rio Grande do Sul. [5]O lançamento deste volume (e a possibilidade de encontrar também na internet as listas e informações que propõe), que coincide com os 140 anos do início da imigração italiana em massa no Brasil, mais uma vez coloca o Espírito Santo na vanguarda. Por-que, se é verdade que outros Estados do Brasil (como por exemplo São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul) informatizaram os dados disponíveis referentes à entrada dos imigrantes, é também verda-de que o Arquivo Público do Estado do Espí-rito Santo fez mais, fornecendo aos seus cidadãos e aos historiadores italianos e brasileiros um banco de dados mais aperfeiçoado, completo e confiável, porque originário do cruzamento de vários tipos de documentação, de origem e proveniência diversas.Os nomes que o leitor aqui encontrará são o resultado da transcrição das listas de passa-geiros (muitas produzidas na Itália), completadas pelas informações das listas de chegada (estas também conservadas pelo Arquivo Nacional do Rio de Janeiro), de passaportes, listas coloniais de matrícula, recenseamento de imigrantes. Além disso, todos estes dados foram completados pela documentação italiana fornecida por cidadãos capixabas de origem italiana. Documentação que o Arquivo propôs-se a procurar, em campo, com um “arquivo-móvel” que angariou uma notável quantidade de novas informações.

O trabalho de quase duas décadas do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo fornece ao usuário uma série de informações que, em média, é cinco vezes maior do que aquela fornecida por outros arquivos brasileiros. Em alguns casos, chega-se a disponibilizar a fotografia do imigrante e cerca de cinquenta categorias informativas, além daquelas mais genéricas oferecidas para cada nome.Tudo isso, naturalmente, é fruto de um trabalho minucioso, contínuo e complexo, iniciado em 1995, e que ainda perdura. Cilmar Franceschetto, diretor técnico do APEES, es-creveu, há algum tempo, um ensaio em que recordava quais eram as finalidades do Pro-jeto Imigrantes do Espírito Santo e quais as dificuldades encontradas para levá-lo a cabo: “Mas, para realizar essa tarefa, era necessário inovar. Aplicar uma ideia que, de início, se nos apresentava simples, porém muito complexa e que exigia um rigor metodológico:

[1] J.F. Carneiro: Imigração no Brasil, Rio de Janeiro, 1950.[2] R.M. Grosselli: Colônias Imperiais na terra do café, Vitória, 2008.[3] Lei n. 11.687/2008.[4] N. Saletto: “Sobre a composição étnica da população capixaba” in “Revista de História da UFES”, Vitória 11-2000,[5] Http://pt.wikipedia.org /Imigração_italiana_no_BrasilPovoação de Santa Teresa, sede do Núcleo Colonial do Timbuhy, vendo-se as primeiras construções dos italianos por entre as florestas das serras capixabas. As primeiras famílias oriundas da Itália que ocuparam a região fizeram parte da Expedição Tabacchi, em fevereiro de 1874. Foto: Albert Richard Dietze, cir. 1874. Acervo Coleção Theresa Cristina Maria, Biblioteca Nacional.

ASCOMCMBSF/Arquivo Público-ES

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